Já para o castigo!

Será que essa alternativa é inofensiva e funciona mesmo na educação do seu filho?

Por Amanda Sampaio Queirós

 

 

Cantinho da disciplina, cadeira da reflexão ou o velho e popular castigo. Os termos ganharam desdobramentos, mas continuam a apontar para um mesmo objetivo: educar as crianças. Sem questionar o que de fato representa educação para um ou outro, o fato é que essa estratégia é historicamente usada, na tentativa de garantir domínio dos adultos sobre as crianças.

 

Os métodos mais tradicionais de educação familiar passam por essa alternativa. Quem nunca ouviu ou soltou um: “você vai ficar de castigo!”? Culturalmente, faz parte da realidade brasileira lançar mão da opção “vá pensar um pouco no que você fez”. Por outro lado ainda, parece confortar a consciência valer-se de uma estratégia que atravessou décadas e não resolve a questão com algum tipo de abordagem física.

 

Na verdade, no entanto, não se trata de uma solução mais conservadora por ser antiga. O filósofo francês Michael Foucault, na década de 70, definia castigo como parte de um sistema de domínio de uma sociedade, que se preocupa com o controle da ordem e da lei.

 

Só muda de endereço

 

Ao ligar a TV, está lá uma diversidade de programas que discutem o assunto. Desde casos corriqueiros que incomodam o cotidiano das famílias, como birras e respostas atravessadas dos pequenos, até situações extremas de agressões e puro desespero familiar.

 

Um dos reality shows mais conhecidos no Brasil traz a educadora Cris Poli como grande esperança das famílias em crise, devido ao comportamento rebelde dos filhos. Supernanny dá nome à atração importada e veiculada há anos pelo SBT.

 

A empatia acontece quando os pais entendem que não são os únicos, tantos outros vivem a mesma realidade. Parece um pouco mais alentador perceber que a “grama do vizinho” nem sempre “é mais verde” – pode ser exatamente da mesma cor. Talvez esse seja um dos motivos da grande popularidade desses programas.

 

Entre muitos dos caminhos que ele sugere, o “cantinho da disciplina” aparece com frequência. Gritos, protestos acalorados físicos ou verbais. Esses manifestos dos pequenos para fazer valer suas vontades costuma ser corrigido com o afastamento deles daquele contexto turbulento por alguns momentos.  

 

Polêmica, a tática divide opinião de psicólogos e educadores. Cris garante que essa espécie de isolamento da criança nada tem a ver com castigo propriamente. “Disciplina é sinônimo de ensino, no qual se estabelecem regras para que a criança saiba o que se espera dela”, afirma.

 

Segundo ela, o método funciona a partir dos dois anos de idade, quando a criança começa a entender o que é uma regra e o conceito de obediência. Nesse processo, o tempo de aplicação da “reflexão” varia de acordo com a idade, um minuto para cada ano de vida. Ou seja, se a criança tem três anos, ela ficará três minutos no “cantinho” e assim por diante.

 

“No começo ela pode não compreender muito, mas, aos poucos, vai entendendo a regra que os pais estabeleceram e raciocinando sobre o comportamento dela. Sei que parece impossível de acreditar, contudo elas já são capazes de refletir, sim”, argumenta.

 

A educadora lembra de alguns ingredientes fundamentais para que haja sucesso nessa estratégia. “As regras têm que ser simples, concretas, adequadas à idade, explicadas e entendidas. Esse processo de amadurecimento da criança deve vir acompanhado pelas atitudes e pelo amor dos pais”, frisa.

 

Para Cris Poli, a real finalidade disso tudo é ajudar a criança a construir a ideia de consequência. “É preciso aprender que as atitudes geram um efeito negativo ou positivo, depende da escolha de cada um. Por isso, a importância de assimilar que há regras. O ser humano, desde pequeno, pode decidir obedecer a elas ou não. A responsabilidade é um traço de caráter para a vida toda”.

 

Castigo X Disciplina

A protagonista do programa procura distinguir enfaticamente os mecanismos de disciplina e o chamado “castigo”. “Não é o mesmo. Castigo machuca, deixa marcas negativas e é determinado num momento de raiva, quando não conseguimos resolver a situação de outra maneira”.

Pelo menos no que se refere ao conceito, parece que a psicóloga Elisa Neiva Vieira compartilha da mesma opinião. “Eu o vejo mais como uma maneira traumática e dolorosa emocionalmente do que uma forma efetiva de correção do comportamento”.

 

Para ela, porém, um dos grandes problemas desse tipo de estratégia seria a simples importação de métodos de educação que funcionam bem em outras culturas, como a norte-americana, por exemplo. “Essas nomenclaturas não condizem com a nossa realidade. Fica absolutamente discrepante fazermos uso de expressões, como ‘cantinho da disciplina’”, critica.

 

Apartar a criança do contexto do conflito ou do convívio social por alguns instantes não seria a melhor alternativa para lidar com uma circunstância de correção. “Pensar em uma ação não quer dizer ficar num quarto, preso em suas próprias consequências. Além do mais, o tempo é muito relativo, o mundo para elas ainda é atemporal”, argumenta a psicóloga.

 

A realidade pode ficar ainda pior se esse tipo de mecanismo for adotado publicamente. “O adulto pode estar expondo a criança a situações vexatórias e traumáticas. A vergonha e o medo permeiam o que envolve o castigo. São sentimentos muito duros e de difícil administração para elas”, afirma Elisa.

 

Uma sugestão mais apropriada no processo de educação, segundo ela, é “fazer uso da palavra”, isto é, nomear o que está acontecendo e dizer o “NÃO”, diante de uma circunstância necessária. “Nesse momento ela poderia ser acolhida no colo. Funciona muito bem”.

 

Já para Supernanny, “ninguém gosta de ser corrigido, portanto essa disciplina deve ser aplicada mesmo diante de choro”, o segredo é “tranquilidade, firmeza e muito amor. O efeito positivo pode ser sentido imediatamente”, garante.

 

“Os pais estão muito desamparados. Tudo que oferte conduta comportamental eficiente é consumido com imediatismo”, rebate Elisa Vieira. “Se eu posso ‘consertar’ o comportamento do meu filho rapidamente, por que não?”.

 

Mesmo a discussão sendo intensa, Cris Poli acredita que há algo em comum entre as opiniões. “Os educadores podem ter pensamentos distintos sobre métodos de disciplina, mas, com certeza, concordam com os princípios e a necessidade dela”, completa.

 

Nossas fontes:

Cris Poli -  é especialista em educação e comportamento infantil, apresenta o programa Supernanny no SBT, ministra palestras e é autora de diversos livros.

Elisa Neiva Vieira – é psicóloga clínica e psico-oncologista.

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