Guerra contra a meningite

De um lado, a persistência no número de casos; de outro, as inovações das vacinas. Quem vence essa batalha?

 

Texto: Marisa Sei e Rose Araujo

 

Essa palavra causa calafrios só de ser pronunciada: meningite. Quantos pais não ficam arrepiados de pensar que esse mal pode atingir seus pequenos? E não é pra menos! A meningite – inflamação no sistema nervoso, que ataca as membranas do cérebro e da medula espinhal – pode ser causada por vírus, alguns tipos de bactérias, fungos, protozoários e parasitas.

 

Quando o assunto é prevenção, a batalha é dura! Nos últimos anos, houve um significativo avanço no quesito imunização, com a chegada de novas vacinas para barrar o ataque das meningites. Na rede pública, estão disponíveis atualmente as vacinas pneumocócica 10 valente, meningocócica C conjugada, e pentavalente. Já na rede privada, são oferecidas a pneumocócica 13 valente, a meningocócica A, C, W, Y, e a pentavalente. Ainda com todos esses cuidados, não são raros os casos da doença pelo país.

 

No Brasil, além dos casos de meningite bacteriana espalhados pelos estados, o que também vem causando preocupação é um novo tipo da doença, a meningite eosinofílica, provocada pelo verme Angiostrongylus cantonensis. Os casos ainda não podem ser considerados uma epidemia, o que não descarta a necessidade de alerta para a prevenção, já que a doença é emergente no Brasil.

 

A meningite causada por verme tem relação direta com a propagação de caramujos africanos, um dos hospedeiros do parasita, além das ratazanas. Até agosto de 2014, eram 34 casos confirmados, uma morte e 84 suspeitas desde 2007, segundo um levantamento realizado por pesquisadores da PUC-RS e do Laboratório de Malacologia da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Porém, como apenas 8% dos casos conseguem comprovação do parasita, o número pode ser bem maior.

 

Fácil prevenção

A gravidade da doença causada por verme depende da quantidade de larvas ingeridas pelo paciente, que se encontram no muco expelido pelos moluscos. Verduras, frutas, legumes e até água podem estar contaminados com esse muco. Assim, as medidas de prevenção para esse tipo de meningite englobam: lavar as mãos frequentemente, beber somente água tratada, lavar bem todos os vegetais e tomar cuidado especial com as crianças pequenas, que podem colocar as mãos sujas na boca ou tocar nos moluscos. Ou seja, medidas simples de higiene já podem evitar a contaminação.

 

Tipo mais grave

São os casos de meningite causada por verme que estão aumentando, porém a meningite bacteriana continua sendo a mais perigosa. “É mais grave porque ocorre um processo inflamatório maior, e assim mais sintomas, podendo até aumentar a pressão dentro do crânio. Os principais sintomas são febre alta, dor na nuca com rigidez da musculatura, dor de cabeça, vômitos e rebaixamento da consciência”, informa o neurologista Luis Eduardo Belini. Em todos os tipos de meningite os sinais são parecidos, porém, na bacteriana, são mais intensos e podem ser fatais. 

 

A auxiliar de serviços gerais Talita Cristina Alves da Silva passou por maus bocados por causa da meningite bacteriana. A filha, Tayssa Fernanda, 7 anos, contraiu a doença no último mês de junho. Foram dias de tensão e desespero, até a menina ficar livre da doença. "Começou com febre e vômito. Nos primeiros atendimentos, no pronto-socorro, os médicos disseram que era virose. Ela chegou até a ser medicada, mas voltou pra casa e o quadro só piorou", conta Talita.

 

Dois dias depois, a menina parou de mexer a cabeça por causa da rigidez na nuca. A mãe, desesperara, correu ao hospital. Além da febre de 40°, Tayssa também parou de urinar e já não andava. "Foi tudo muito rápido!", conta a mãe.

Na terceira ida ao hospital, o pediatra de plantão desconfiou de meningite. Imediatamente, ele aplicou antibiótico e colheu o líquor para o exame. "Foi a nossa sorte! Ele ter entrado com o medicamento naquele momento salvou a vida da minha filha", ressalta Talita.

 

A meningite de Tayssa foi a bacteriana, que teve como origem uma sinusite mal-curada. A bactéria, em vez de ser expelida, subiu para a cabeça e alojou-se nas membranas do cérebro. Talita relembra que a filha não chegou a ser imunizada quando bebê, pois a vacina ainda não estava disponível na rede pública de saúde. "Eu nem sabia que existia essa vacina", destaca.

 

Os pais devem sempre ficar alertas e insistir no diagnóstico correto das crianças. Assim que perceber algum sintoma, o ideal é procurar um médico imediatamente e iniciar o tratamento com antibióticos. Quanto antes a doença for detectada, mais eficaz é o tratamento. “Quando o diagnóstico é tardio ou a medicação é inadequada, podem surgir complicações durante ou após a infecção”, avisa o infectologista Antônio Luiz Chaves, professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis.

 

A importância da vacinação

Como método de prevenção, já existe a vacina quadrivalente, que imuniza contra os sorogrupos A, C, W-135 e Y, disponível em clínicas particulares e indicada para crianças a partir dos dois anos de idade. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece a vacina meningocócica, ministrada em duas doses nos bebês: uma aos três e outra aos cinco meses de idade, ou com intervalo mínimo de 30 dias, e depois reforçada entre os 15 e 18 meses; e a pneumocócica, que protege de doenças como meningite e tuberculose, para crianças entre seis semanas e seis anos incompletos.

 

Agora, a mobilização é em torno da disponibilização da vacina para a meningite tipo B, que já está aprovada na Europa. Como os casos desse subtipo grave da doença começam a crescer, é grande a movimentação da classe médica e sociedade civil para que o governo brasileiro implante a imunização contra o meningococo B. De acordo com informações do Instituto Pedro Arthur, uma das principais entidades organizadas de combate à doença, no Brasil, o meningococo B já representa cerca de 20% dos casos da doença, tendo maior incidência na região sudeste (Rio de Janeiro e São Paulo).

 

Na Europa, a vacina já está licenciada. No Brasil, ainda passa por avaliação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Mas, assim que for liberada, deverá estar disponível, num primeiro momento, apenas nas clínicas particulares. Por isso, o Instituto Pedro Arthur lançou um abaixo-assinado para apresentar um projeto de lei de iniciativa popular visando a inclusão dessa nova vacina imediatamente no calendário público.

 

Tanto a prevenção quanto o tratamento em caso de diagnóstico são fundamentais, já que a meningite mal tratada pode provocar hidrocefalia, convulsões, surdez, déficits motores e intelectuais. “Em crianças e recém-nascidos, pode causar sequelas neurológicas graves – 50% dos recém-nascidos ficam com estas sequelas”, acrescenta o infectologista.

 

No entanto, a vacinação não é garantia de evitar a doença. “A vacina é dada na criança para prevenir as complicações da meningite. O adulto pode tomar também, mas não o impedirá de ter a infecção. A principal forma de prevenção é evitar o contato com pessoas infectadas e tratar adequadamente infecções como sinusites, otites e faringites, pois são vias de acesso para a bactéria chegar ao cérebro”, explica Belini. Os vírus e as bactérias da meningite são transmitidos através de gotículas de saliva eliminadas por meio da tosse, beijo ou espirro, pelo contato fecal-oral (daí a importância de sempre lavar bem as mãos) ou pelo compartilhamento de utensílios como talheres e toalhas.

 

Aumentando as defesas

Nas meningites causadas por vírus, o quadro costuma ser mais leve e os sintomas, parecidos com os de gripe e resfriado. Febre, dor de cabeça, falta de apetite e um pouco de rigidez na nuca são os principais sintomas que aparecem nas crianças. Como não há medicamentos capazes de combater o vírus, o próprio corpo se encarrega de se recuperar sozinho e a doença desaparece em algumas semanas, com a ajuda de repouso, ingestão de muita água e, em alguns casos, medicamentos para aliviar as dores. Para uma boa recuperação, é importante que o sistema imunológico esteja funcionando corretamente. Assim, alimentação equilibrada, prática de exercícios físicos e boa ingestão de líquidos sempre são fundamentais tanto para o tratamento da meningite quanto para a prevenção de quadros mais graves e outras doenças.

 

Previna-se!

As medidas a seguir valem para reduzir os riscos de todo tipo de meningite. Mesmo se não houver casos da doença na sua cidade, prevenção nunca é demais, certo? Confira as dicas dos especialistas:

 

  • Ensine as crianças a lavarem as mãos sempre após usarem o banheiro, antes das refeições, ao chegarem da rua e após brincar em parques e outros locais públicos;

  • A meningite pode ser assintomática, assim, adultos podem carregar a bactéria ou vírus e transmitir às crianças. Portanto, as medidas de prevenção são válidas para a família inteira. Para reduzir o risco de transmissão é importante tapar a boca ao tossir ou espirrar, com lenço descartável; não compartilhar objetos pessoais como escova de dentes e nem utensílios de cozinha, como talheres e copos;

  • Ao chegar das compras, lave todos os vegetais em água corrente, deixe-os de molho por 20 a 30 minutos em uma mistura com 1 colher (sopa) de água sanitária para cada litro de água e passe pela água corrente novamente. Guarde-os na geladeira já higienizados;

  • Beba somente água filtrada ou mineral e use-a também para fazer os cubinhos de gelo;

  •  Mantenha o ambiente arejado, deixando a luz do sol entrar, e evite aglomerações;

  • Com o tempo seco, as vias respiratórias ficam mais suscetíveis à entrada de micro-organismos. Incentive as crianças a beberem bastante água durante o dia. Frutas e legumes ricos em água, como melancia, melão e pepino, também colaboram com a hidratação das mucosas.

 

 

Nossas fontes:

Antônio Luiz Chaves é infectologista e professor da Faculdade de Medicina de Petrópolis (RJ)

Luis Eduardo Belini é neurologista

Instituto Pedro Arthur

 

28/09/2014

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