Por que algumas crianças são seletivas na hora de comer?

 

Quando os primeiros alimentos sólidos são acrescentados à dieta da criança, é normal que alguns sejam recusados e outros mais requeridos, exigindo dos pais e responsáveis paciência, dedicação e até criatividade para que os hábitos dos pequenos sejam moldados de forma saudável. “Toda criança passa por algum tipo de escolha, tem preferências e aversões, mas isso não compromete a dinâmica da alimentação. Mas quando o problema afeta a família, causa deficiências nutricionais, altera o peso, altura ou convívio social, passa a ser importante e deve ser avaliado e tratado”, alerta o pediatra e nutrólogo Mauro Fisberg.

           

Uma das causas dessa recusa e escolha exagerada é chamada de seletividade alimentar, caracterizada por hábitos como não querer fazer as refeições, recusar grupos de alimentos ou pedir sempre pelo mesmo produto. Uma pesquisa encomendada pela Mead Johnson Nutrition Brasil, realizada com 2.694 mães das cidades de São Paulo e Recife, revelou que 33% delas apontam que seus filhos apresentam comportamentos típicos de “picky etaers”, termo em inglês para “comedores seletivos”. Foram entrevistadas mães de crianças de um a 10 anos e a faixa etária que mais apresentou comportamentos seletivos foi de quatro a seis anos.

 

Não come por quê?

           

“As razões desse comportamento são bastante complexas. Podem ter causas biológicas, quando o paladar da criança é muito aguçado e provoca rejeição a sabores mais fortes. Porém, a maioria dos estudos que acompanhamos aponta as questões psicológicas e sensoriais como as mais relevantes”, diz a nutricionista Mirella Pasqualin. Assim, cheiro e aparência dos alimentos, pressão na hora de comer, punição por não terminar a refeição, entre outros fatores, contribuem para a formação de uma criança seletiva. “Existem crianças que não se alimentam por falta de afeto ou porque querem chamar a atenção. Por outro lado, há os hábitos alimentares da família. Se a mãe, por querer suprir os alimentos rejeitados pela criança, oferece substitutos de baixo valor nutritivo, o pequeno associa que, se não comer, obterá o que deseja”, avisa. Ou seja, oferecer batata frita, biscoito recheado e outras guloseimas só para que a criança se alimente não é a melhor saída.

 

Quando ficar alerta

 

É na hora das refeições que os pais devem prestar mais atenção, principalmente com reações negativas como chorar, cuspir ou vomitar diante de novos alimentos. Essas atitudes precisam ser modificadas, ou a criança pode se tornar um “picky eater” e desenvolver problemas futuros. “A seletividade alimentar prolongada pode levar à deficiência de nutrientes, como vitaminas e minerais, modificar o crescimento, afetar o desenvolvimento e especialmente influenciar no comportamento social, escolar e familiar, gerando tensões”, explica Fisberg. Obesidade e transtornos alimentares, como bulimia e anorexia nervosa, além de doenças como diabetes e pressão arterial também podem surgir.

 

O papel dos adultos

           

Caso os sinais de seletividade alimentar sejam observados nos pequenos, os pais devem procurar um pediatra ou nutricionista. Só um profissional pode diagnosticar o problema e indicar os tratamentos, que podem incluir orientações de um psicólogo, e ajudar na mudança de hábitos em casa, que é indispensável, uma vez que, não só para a alimentação, a criançada tende a seguir o exemplo dos adultos. “Filhos de pais que tiveram algum problema alimentar, fizeram mais dietas, tiveram transtornos alimentares, obesidade ou cirurgia bariátrica, têm maior potencialidade de desenvolver dificuldades alimentares de diferentes tipos. Além das características genéticas, o não comer está relacionado ao padrão da família, por exemplo, a forma como todos se alimentam, rituais e hábitos e especialmente o tipo de controle ou falta de limites que a família apresenta para os filhos”, complementa o nutrólogo.

 

Para evitar

           

Algumas medidas podem ser tomadas em casa para estimular uma alimentação regrada e saudável pelas crianças. Confira as dicas dos especialistas:

  • Pode haver relutância em consumir novos alimentos na primeira oferta. O recomendado é variar a forma de preparar e servir o alimento. “Para realmente dizer que a criança não gosta de um alimento, é necessário oferecê-lo dez vezes”, destaca Mirella. Em vez de excluir totalmente um grupo de alimentos que o filho não gosta, o ideal é dar oportunidades para que ele experimente repetidas vezes, o que pode intensificar a aceitação.

  • Não é necessário um cardápio totalmente restrito, mas sim a adequação quanto à qualidade e quantidade dos alimentos. “Todo alimento pode ser consumido, dependendo do contexto, frequência e quantidade, e sem substituir refeições por escolhas menos adequadas. A criança tende a gostar de alimentos com maior quantidade de açúcar, sal ou gordura, e cabe aos pais e responsáveis avaliar quando e como esses alimentos podem ser ofertados”, recomenda Fisberg.

  • Ofereça a maior variedade de alimentos possível desde cedo. “As refeições devem incluir todos os grupos de alimentos: frutas, legumes e verduras, proteínas, carboidratos e leguminosas. Além disso, vale o envolvimento da criança na alimentação, como idas à feira e ao supermercado, participação no preparo das refeições e lanches e acesso à informação nutricional de forma lúdica e divertida. A educação alimentar tem impacto direto na saúde das crianças e também nos adultos”, completa a nutricionista.

 

Em números

A pesquisa da Mead Johnson Nutrition Brasil mostrou ainda que, dos 33% das mães que disseram que seus filhos são "picky etaers”:

- 57% delas afirmaram que seus filhos distraem-se facilmente durante as refeições;

- 53% disseram que ter filhos que rejeitam vegetais e/ou algum grupo de alimentos;

- 41% relataram que as crianças comem em pequenas quantidades;

- 38% comem extremamente devagar;

- 46% das mães declararam que os pequenos não comem no café da manhã;

- 25% que eles pulam o jantar e 20%, o almoço.

 

“Esses comportamentos foram os mais citados entre aqueles que caracterizam os comedores seletivos e fazem com que essas crianças não consumam a quantidade e variedade de alimentos que precisam diariamente para uma nutrição completa. Como rejeitam muitos alimentos, a dieta fica restrita a poucos tipos de comida, geralmente carboidratos, alimentos ricos em açúcar e os processados”, destaca Alan Kirszenwurcel, gerente da Mead Johnson.

 

Texto: Marisa Sei

 

 

Nossas fontes:

 

Alan Kirszenwurcel, gerente da Sustagen – Mead Jonhson Nutrition Brasil

Mauro Fisberg, pediatra e nutrólogo do Centro de Dificuldades Alimentares – Instituto Pensi e Hospital Infantil Sabará

Mirella Pasqualin, nutricionista

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