Entenda por que a presença do pai é tão importante durante o parto

 “As contrações começaram no dia anterior, e foram mais de 26 horas até que a bolsa se rompesse. Aí veio o período expulsivo que durou mais de três horas. Não tenho a menor ideia de onde a Rita tirou tanta força. Os minutos finais foram no banquinho, colocado então em nossa sala. Sentado no sofá, eu a apoiava por trás, e dali, abraçado a ela, vi nascer o Francisco. Assim que ouvi o primeiro choro, desabei a chorar e quando olhei para ela achando que também estava chorando, não! Estava rindo, um riso emocionado, de alívio, de alegria, o riso mais lindo que já vi. É impossível explicar esse elo criado entre nós três naquele momento. Foram horas incrivelmente intensas e que me fizeram instantaneamente um pai.”

 

O relato acima é do professor Paulo Henrique Soranz, pai do Francisco, que nasceu em casa. Toda a atuação dele durante a gestação e no nascimento do filho é algo ainda incomum em nossa sociedade, onde o papel do pai nestas horas não é visto com muita importância.

 

Para muitos pais, a história é bem diferente da de Paulo, e a gravidez da esposa é como se fosse um filme. Eles assistem, se emocionam, mas se comportam como mero espectadores. Até porque, muitos desconhecem a importância da participação ativa do pai em todos os momentos – da gestação ao nascimento, no pós-parto e na amamentação, e por aí vai.

 

Mas este comportamento vem mudando. “Desde a década de 60 tem ocorrido um aumento da participação dos pais e companheiros afetivos durante todo o processo do parto e nascimento. Isso tem auxiliado os profissionais e as famílias a melhorar a atenção à saúde das mães e dos bebês”, destaca a enfermeira Mayara Segundo Ribeiro, que também é doula e educadora perinatal.

 

 

 

Pai não é visita! 

A partir da criação, em 2005, da lei 11.208, conhecida como Lei do Acompanhante, muita coisa está mudando – e outras ainda precisam mudar. A participação dos homens na sala de parto foi reforçada e muitos papais começaram a prestar toda a assistência às mamães na hora mais intensa e especial da vida de um casal. A postura deles neste momento tem se modificado e essa nova geração de pais tem uma tendência muito mais prestativa e envolvida na hora de trazer a criança à luz.

 

“Os pais gostam de participar do parto como parte essencial de sua experiência reprodutiva. Esses pais qualificam sua presença como um importante elemento de proteção e companheirismo”, destaca Mayara.

 

O envolvimento do casal neste momento pode trazer inúmeros benefícios, como, por exemplo, a segurança da mulher, o que reduz o tempo de trabalho de parto e firma um vínculo familiar consistente. “Evidências científicas mostram que o apoio emocional no parto é uma medida simples que pode melhorar muito a experiência, sendo associado com menor risco de solicitação de analgésicos, menos risco de cesárea ou de uso de fórceps, menor risco para a saúde do bebê, maior satisfação com o parto, menor risco de lesão do períneo, menor risco de desmame precoce e de dificuldades de maternagem no pós-parto, entre outros”, destaca Mayara.

 

 

“O homem tem forte influência no desenvolvimento do sentimento de segurança da mulher durante o parto: ela se sente mais segura, amparada, protegida e satisfeita, por poder dividir com o companheiro as dúvidas e ansiedades desse momento”, Mayara Segundo Ribeiro.

 

 

 Como incluir? 

Para que o pai possa fazer parte de todo o processo, é preciso preparo e consciência de tudo o que ocorre na hora do parto. Além disso, médicos, enfermeiros e todos os profissionais envolvidos têm de estar prontos para atender o casal e não somente a mulher.

 

Esse seria um dos motivos pelos quais muitos hospitais ainda recusam ou desaconselham a presença do pai na hora do parto. E os progenitores também desconhecem seus direitos.

 

“O acompanhante algumas vezes é visto como um problema, por que os serviços não estão preparados para recebê-lo. São comuns as justificativas de que não há espaço adequado ou a presença de mais um sujeito no ambiente do parto aumentaria os custos ou o risco de infecção, e também argumentos de que os acompanhantes atrapalham o trabalho dos profissionais. Nenhum desses argumentos justifica-se, considerando que os hospitais deveriam adequar seus espaços e suas rotinas para incluir a presença do acompanhante desde 2005, quando foi publicada a Lei do Acompanhante”, salienta Mayara.

 

 Papel de pai 

O pai tem papel fundamental durante a gestação, e apesar de não carregar o bebê, ele deve estar tão presente quanto a mãe em todas as questões da gestação, do parto e da vida de seu filho, cercando-se de conhecimento sobre cada etapa desses processos. A presença e o amor tornará a relação intensa e produtiva, como afirma Mayara. “A compreensão e o carinho são tão essenciais quanto a presença do homem no processo que vai da reprodução ao nascimento. Para que a inserção dele nesse processo seja exitosa, é primordial que ele compreenda que sua companheira, bem como a família, está passando por transformações e cabe a ele ofertar uma base sólida e suporte emocional”, diz.

 

 Vínculo reforçado 

É ali, na sala de parto, que já começa a nascer a relação mais importante e forte de toda uma vida: a que ocorre entre pais e filhos. Ao deixar a barriga da mãe, o bebê se sente inseguro e solto no mundo, até que é colocado no colo e pode se aconchegar e receber proteção. “Nesse momento, o olho no olho do pai, da mãe e do bebê é de extrema importância para que ocorra o imprinting, que é um fenômeno descoberto pela neurociência, considerado o amor à primeira vista. Foi percebido primeiramente nos animais através de estudos sobre o processo pelo qual um animal recém-nascido reconhece sua mãe. O imprinting comprova o quanto é importante os primeiros momentos dos pais com o bebê para a criação do vínculo”, ensina Mayara.

 

É LEI!

 A presença de um acompanhante na sala de parto está garantida pela Lei 11.208, de 2005. Toda parturiente tem direito a ter uma pessoa indicada por ela durante o trabalho de parto, o parto propriamente dito e no pós-parto (período por até 10 dias). Dessa forma, todo hospital, casa de parto ou maternidade deve permitir o acesso dessa pessoa ao processo de nascimento do bebê.

Caso tenha problemas em fazer cumprir esta lei, a primeira providência é acionar a ouvidoria da instituição de saúde. Se não resolver, procure o Ministério Público do seu município. Outra opção é ligar para a Ouvidoria Geral do SUS, pelo telefone 136.

 

 

 Momento divino 

O gestor de desenvolvimento educacional, Leandro Aparecido Soares, também conta com grande emoção como foi acompanhar o nascimento de Vitor, em junho deste ano. Desde o momento em que a bolsa rompeu, Leandro ficou com a esposa e procurou transmitir calma e segurança, mesmo estando ansioso. “Fomos para o hospital às 13h30, junto com uma doula amiga.

 

Às 15h30, após um exame para ver a dilatação, ela foi para uma sala de pré-parto com a doula, e eu só pude ter acesso às 18h20. Ao entrar na sala, me deparei com minha esposa exausta, acompanhada da doula e um médico plantonista. Colaborei no processo de expulsão do bebê, empurrando a perna esquerda de minha esposa. A perna direita era empurrada pela doula. Assim ficamos nesse processo do expulsivo até as 18h50, quando na troca do plantão, presentes na sala de pré-parto apenas eu, minha esposa e a doula, a cabeça do Vitor saiu por completo.

 

Nesse momento, a doula saiu da sala para chamar o médico. Permaneci sozinho naquela situação, quando de repente, outra contração e saiu o ombro esquerdo do Vitor. A médica que assumiu o plantão apenas teve o trabalho de colocar as mãos e apoiar o bebê. Ao nascer, o Vitor foi colocado nos braços de minha esposa e eu fiquei incumbido de cortar o cordão umbilical. Acompanhei meu filho até a sala de neonatal para limpá-lo, pesá-lo, medi-lo, dar banho e agasalhá-lo. Ele chorava, mas quando a médica perguntou se eu gostaria de segurá-lo e eu o carreguei pela primeira vez, na hora ele parou de chorar! É incrível, mas parecia que nós já nos conhecíamos. Um sentimento de amor e paz inexplicável!”

 

Por Rose Araujo

 

Nossas fontes

Mayara Segundo Ribeiro, enfermeira formada pela USP - Ribeirão Preto, mestranda em Saúde Pública pela USP - Ribeirão Preto, doula, educadora perinatal, consultora em amamentação

Mariana Azevedo, coordenadora geral do Instituto Papai.

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