Saiba como driblar a alergia alimentar

O número de crianças com alergia alimentar cresce a cada ano. A boa notícia é que as estratégias de pais e especialistas para lidar com o problema aumentam na mesma proporção

 

No supermercado, os olhos da jornalista Denise Galvão percorrem atentamente a lista de ingredientes presente nos rótulos de cada alimento que coloca no carrinho. A busca é por qualquer tipo de proteína do leite de vaca, que pode vir disfarçada de nomes bem inusitados, como caseinato de cálcio ou fosfato de lactoalbumina. “É comum ver no mercado o termo 'sem lactose'. Mas, quando vejo o rótulo, encontro uma proteína de leite, e isso não pode ser consumido pelo meu filho”, explica a mãe do pequeno Miguel, de 1 ano e 11 meses.

 

Aos oito meses de vida, Miguel recebeu o diagnóstico de que tinha uma moderada restrição à proteína do leite de vaca. “Ele sofria bastante com constipação, mas mais tarde veio um problema ainda mais grave. Quando estava com sete meses, uma gripe virou uma pneumonia em um prazo muito curto”, diz a jornalista. Foi apenas no consultório de uma pediatra especialista que Denise descobriu que a proteína do leite de vaca era a responsável por baixar a resistência do sistema respiratório de seu filho.

 

Estatísticas

O caso de Miguel está longe de ser isolado. O número de crianças com algum tipo de restrição alimentar vem crescendo no mundo. Segundo um estudo feito nos Estados Unidos, pela Universidade Northwestern, em cinco anos o índice de internações e consultas hospitalares provocadas por crises alérgicas alimentares em meninos e meninas aumentou quase 30% ao ano.

 

Todos chegam aos consultórios e hospitais apresentando um ou mais sintomas característicos da alergia, tais como sangue nas fezes, cólicas, diarreia, constipação e vômitos. “Outras alergias, tipo dermatite atópica e alergias de pele no bebê nos primeiros meses de vida, também são sintomas”, explica a médica gastroenterologista Cristina Targa Ferreira, presidente do Departamento de Gastro Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria.

 

O cuidado na escola

Miguel frequenta a escola durante meio período. Semanalmente, Denise recebe o cardápio do que será oferecido para as crianças nos próximos dias. Além disso, ela mesma prepara o lanche de seu filho: sempre uma fruta. Como a direção da escola só permite que as mães enviem frutas ou sucos para serem consumidos no local, Denise fica tranquila quanto a uma possível troca de alimentos com os amiguinhos. “E há outras crianças lá com a mesma restrição. Inclusive, quando tem aniversário na escola, ela oferece docinhos sem lactose para que todos possam comer”, completa Denise.

 

Segundo a nutricionista Mariana Del Bosco, membro do Grupo de Pesquisa de Dificuldades Alimentares na Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), é importante manter uma relação de confiança entre familiares e escola, com constante troca de informação de ambas as partes. “Qualquer dieta de restrição traz esse impacto nutricional e social. Mas, para aquelas crianças cujos desfechos das reações podem ser graves, partimos do princípio que haverá também um grande impacto emocional”, destaca a especialista. “Isso pode, eventualmente, nortear tomadas de decisões para escolhas mais 'radicais', no sentido de minimizar os riscos, mesmo que isso signifique até mesmo adiar o ingresso na escola”, complementa.

 

 

"Quando a criança está em casa, é mais fácil controlar a alimentação. Mas, na casa de amigos, na escola, em festas, sempre há uma sensação de risco eminente de que haja um contato com o alérgeno ou uma ingestão acidental",

Mariana Del Bosco, nutricionista

 

 

Vontades sob controle

Lidar com as vontades das crianças é uma das maiores dificuldades que os pais enfrentam quando os filhos recebem o diagnóstico de alergia. Contudo, segundo Mariana, é preciso encarar com naturalidade essas limitações. “Mesmo porque crianças podem ter outras vontades de alimentos que não são adequados a sua idade. Nessa circunstância, os pais falam 'não' e explicam o motivo. Na alergia alimentar, é a mesma coisa. Devemos explicar o porquê”, esclarece.

 

Assim, ao mesmo tempo em que a criança cresce e adquire mais consciência sobre si mesma, um trabalho de conscientização deve ser iniciado. “A palavra de ordem é educar para que ela mesma aprenda a se proteger”, destaca a nutricionista Raquel Bicudo Mendonça. Também é essencial que os pais não vitimizem os filhos, tachando-os de ‘coitadinhos’ por não poderem ingerir todos os tipos de alimento. De acordo com Raquel, a criança precisa ouvir e assimilar comentários positivos sobre sua alimentação. “Afinal, muitas crianças alérgicas seguem uma dieta muito mais saudável do que aquelas sem restrições alimentares”, complementa.

 

Além disso, algumas estratégias ajudam os pais a driblar os desejos dos filhos, como ter sempre à mão um doce adequado à dieta da criança. Em casos de festas de aniversário e idas a casas de amigos e familiares, a dica é perguntar aos responsáveis pelo evento o cardápio que será servido e levar opções semelhantes e adequadas para a criança que tem alergia alimentar.

 

 Alergia x intolerância 

Pode até parecer a mesma coisa, mas não é! Intolerância à lactose significa que a pessoa tem dificuldade em digerir o açúcar presente no leite. “O maior erro que se vê por aí é dizer que a criança tem 'alergia à lactose'. Isso não existe!”, salienta a gastroenterologista Cristina Targa Ferreira. Normalmente, adultos e idosos sofrem com intolerância, já que é natural o organismo perder, com o passar dos anos, a enzima capaz de digerir a lactose.

 

Já a alergia alimentar é um quadro clínico diferente, sendo bastante comum em crianças, devido à “imaturidade” do intestino. Nesse caso, o organismo produz anticorpos para atacar aquela proteína ingerida. Mas, ao excluir a proteína agressora da dieta – base do tratamento para alergia alimentar –, o intestino se recupera e se fortalece, tornando-se, assim, capaz de enfrentar essa substância posteriormente. Dessa forma, todos que sofrem com alergias alimentares em geral tornam-se tolerantes antes de completar cinco anos de idade.

 

 Proteção extra 

* Leia atentamente os rótulos de alimentos, procurando, inclusive, sinônimos da substância que causa alergia à criança. Se preciso, ligue no SAC da empresa para ter certeza de que o produto seja livre do composto alergênico.

 

* Mesmo que já tenha o hábito de comprar determinado produto, continue verificando seu rótulo. É comum a composição de alimentos industrializados mudar.

 

* Marque uma reunião na escola para salientar a importância de que a dieta restritiva seja seguida. Vale ainda traçar um plano de emergência caso ocorra uma ingestão acidental.

 

* Mantenha todas as pessoas que atuam diretamente na vida da criança (avós, tios, irmãos e amigos mais próximos) avisadas sobre a sua alergia alimentar.

 

 

Texto Natália Ortega

 

Nossas Fontes:

Mariana Del Bosco, membro do Grupo de Pesquisa de Dificuldades Alimentares na Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

Cristina Targa Ferreira, presidente do Departamento de Gastro Pediatria da Sociedade Brasileira de Pediatria.

Sociedade de Pediatria do Rio Grande do Sul

Raquel Bicudo Mendonça, mestre e doutoranda em Ciências Aplicadas à Pediatria pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)

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