Microcefalia: dos cuidados na gestação ao controle do zika vírus

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil já enfrenta uma epidemia da má-formação. Estudo confirma capacidade do vírus atravessar a placenta durante a gestação

 

Por Marisa Sei

 

O Brasil já soma 3.448 casos de microcefalia cuja causa suspeita está relacionada ao vírus zika, segundo dados do Ministério da Saúde, que já confirmou 270 casos de bebês que nasceram com microcefalia por infecções congênitas. Isso significa que podem ou não terem sido causados por algum agente infeccioso como o Zika, além de 49 mortes.

 

O que chama a atenção, é que uma recente pesquisa realizada pelo Instituto Carlos Chagas, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) do Paraná, em conjunto com a PUC-PR, confirmou pela primeira vez a capacidade do vírus atravessar a placenta durante a gestação. O fato foi constatado pela patologista pediátrica associada da Sociedade Brasileira de Patologia (SBP) e professora de Medicina da PUC-PR, Lúcia de Noronha.

 

A população em geral deve ficar atenta, pois o desenvolvimento de uma vacina pode demorar de 3 a 5 anos. A única forma de evitar a doença é eliminar os focos do agente causador, ou seja, do mosquito Aedes Aegypti. A oragnização Pan-Americana da Saúde (OPAS), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) das Américas, divulgou estimativa prevendo que entre três e quatro milhões de pessoas devem contrair o Zika vírus em 2016 no continente americano. Desses, 1,5 milhão de casos devem ser registrados no Brasil.

 

Sintomas leves, consequências graves

Os sintomas são semelhantes aos da dengue, como febre, coceira, dor de cabeça, no corpo e atrás dos olhos e manchas vermelhas na pele. Os sinais costumam ser mais leves que o da dengue e podem passar despercebidos pelos pacientes. Por isso mesmo, suspeitava-se de que a doença fosse mais branda, contudo, a relação entre o vírus e a microcefalia preocupa os pesquisadores, que em dezembro de 2015 formaram uma força-tarefa para buscar alternativas para prevenir a doença, já que há estimativa de uma infestação da doença a partir de março deste ano.

 

Institutos de outros lugares do mundo, como o Pasteur, na França, também estão colaborando com os estudos. Ainda não existe vacina e nem um teste rápido e barato para diagnosticar a doença, portanto, a principal recomendação é que as gestantes se protejam do mosquito com repelentes e, claro, toda a população contribua evitando os criadouros como recipientes com água parada.

 

No caso da microcefalia, o risco se dá caso a mulher contraia o zika durante a gestação. “O vírus circula na corrente sanguínea por pouco tempo, de três a cinco dias, no máximo sete. Assim, caso a mulher tenha tido zika há meses atrás e não estava gestante, não há risco para o feto. Ela deve evitar ao máximo a exposição ao mosquito, usando repelentes próprios para gestantes (o que pode ser conferido na embalagem), vestir roupas que cubram a maior parte do corpo, evitar contato com pessoas com quadro da doença, entre outras medidas”, recomenda Rosana.

 

Mas o que é a microcefalia?

É uma doença que faz com que o cérebro do bebê não cresça corretamente e, por isso, ele também nasce com o crânio menor que o normal. “Nesses casos, o perímetro da cabeça é igual ou menor do que 32cm, o que pode comprometer o seu desenvolvimento. Uma das características da doença é a desproporção entre a face e a caixa craniana”, explica a ginecologista Maria Luiza Mendes, do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos.

 

A microcefalia pode causar deficiência intelectual e cognitiva, além de atrasos psicomotores que comprometem visão, fala e locomoção – essas condições dependem da gravidade do problema, ou seja, de quanto do tecido cerebral foi afetado. Em algumas crianças, a inteligência não é afetada, mas ainda podem aparecer déficit visual ou auditivo e epilepsia, e não é possível mensurar uma expectativa de vida, uma vez que a microcefalia em decorrência do zika vírus é uma situação nova – até então, surtos do problema também não existiam no país.

 

A doença é identificada somente a partir da vigésima semana de gestação, por meio da ultrassonografia, quando se mede o crânio do feto. “Ela é irreversível, portanto, não há tratamentos específicos. É possível melhorar a qualidade de vida e o desenvolvimento da criança com acompanhamento de profissionais como pediatras, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais”, acrescenta a ginecologista. Esse acompanhamento precisa ser feito desde os primeiros dias de vida do bebê.

 

Outras possíveis causas

Para os pesquisadores, apesar da relação do vírus zika com a microcefalia, é fundamental levar em conta os outros fatores que podem causar o problema no feto, que também está associado a síndromes genéticas, abuso de álcool e drogas durante a gravidez ou infecção por rubéola, catapora, toxoplasmose ou citomegalovírus. “As infecções adquiridas pela mãe e direcionadas ao feto são fatores de risco, especialmente no primeiro trimestre de gestação, período em que o cérebro do bebê está iniciando sua formação”, destaca Maria Luiza.

 

Medidas preventivas

Uma das recomendações do médico para evitar a microcefalia seria a mulher esperar que a situação esteja controlada no país para engravidar, ou conversar bem com uma equipe médica antes de tomar a decisão. Quem já é gestante, porém, deve tomar alguns cuidados importantes:

 

- Usar repelentes. O tipo mais procurado pelas gestantes é o produto à base de icaridina, que tem tempo de duração de até 10 horas. Contudo, dermatologistas afirmam que nenhum repelente é contraindicado para grávidas, desde que a reaplicação ocorra no máximo três vezes ao dia. Antes de aplicar qualquer produto, o ideal é consultar o médico.

 

- Realizar todos os exames de pré-natal e manter os cuidados indicados para toda gestante, como não ingerir bebidas alcoólicas, não fumar, manter uma alimentação saudável e sempre conversar com o médico sobre o uso de qualquer medicamento.

 

- Sempre que possível, utilizar calças e blusas de manga comprida.

 

- Evitar acúmulo de lixo e água parada em casa, conferindo todos os locais pelo menos uma vez por semana, evitando também lugares com mosquitos.

 

- Manter as portas e janelas fechadas ou com telas.

 

Aposte em repelentes eficazes

Uma pesquisa da Universidade Estadual Paulista (Unesp), em Botucatu, buscou investigar a eficácia de opções naturais de repelentes, como os à base de óleo de cravo ou óleo da planta citronela. Segundo os pesquisadores, esses repelentes não são liberados para comercialização pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por não terem proteção comprovada cientificamente.

 

No estudo da Unesp, os repelentes naturais mostraram pouco tempo de proteção, afastando os mosquitos por pouco mais de dois minutos, em média. Já os repelentes com picaridina, um dos mais indicados para afastar o mosquito da dengue, protegeram a pele por cerca de uma hora e meia. Apostar em produtos caseiros ou naturais, portanto, pode ser uma forma complementar de proteção, mas não dispensa os repelentes tradicionais e o combate ao mosquito.

 

 

 

 

Nossas fontes:

- Rosana Richtmann, infectologista e presidente da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital e Maternidade Santa Joana

- Maria Luiza Mendes, ginecologista do Complexo Hospitalar Edmundo Vasconcelos

 

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